25/05/08

Passos

Sou figura dotada de pernas compridas e por natureza dar passos não me devia custar, mas caminhar tem-se revelado difícil. Chamem-lhe caminho sinuoso, pedras no sapato, pouca vontade ou até mesmo não saber andar, a verdade é que a sola do sapato se gasta e apenas para deixar pegadas. Em frente? não vejo nada. Vejo íngreme inclinação e apenas um morro que nem água para beber deverá ter. Sonho com o que está para lá do topo, fé, chamam-lhe muitos, e dizem que é isso que mantém o mundo a rodar.
Mantenho a ideia de que velhas memórias me puxam pelo peito, mas quanto tempo irão durar estas é o que me preocupa. E o que me põe o sorriso na cara esporadicamente é ainda mais preocupante, é real, é bom, não quero que acabe, e ao contrário do resto promete que se torne melhor mas acreditar não chega e se não for verdade, pior do que ser privado de sorriso raro é resultar na decadência que afoga sem matar.
Mantenha-se o percurso a ser feito, já que de outra forma não pode ser, mas as forças para colocar um pé em frente ao anterior reduzem-se a fontes que pingam, não abundam, e a escassez não é trocada pela inexistência porque ainda consigo cavar bem fundo e arrancar raízes do que são hoje plantas mortas no frio do inverno. Fervilha na cabeça se deverei procurar mais ainda, ou viajar e procurar prados novos, sítios onde só a presença faz respirar. Mas não se pode responder a tal questão sem mergulhar a cabeça, e muito menos enquanto me vir a subir sozinho. No dia em que as pegadas se marcarem num só par, mas com o peso de dois, verei se caminhar assim vale a pena. Por enquanto mantenho-me longe das costas íngremes, não com medo de tropeçar, mas sim que tenha vontade de atalhar caminho até ao fundo.

1 comentário:

Daniel disse...

Lá vem este chamar as visitas ao blog com tópicos mais dispersos que a letra do Abrunhosa.